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Saúde intestinal, uma crônica contemporânea

- Destaque para os principais pontos de discussão que definem como alcançamos a promoção da saúde intestinal de leitões

Breve histórico sobre os desafios

Dou início a este punhado de palavras me lembrando dos meus primeiros dias de contato com a indústria da carne suína, quando, no início deste século, fomos estremecidos com a circovirose. Um vírus que fez a suinocultura ser repensada, os pontos de Madek serem reavivados e a consciência e o engajamento se tornarem as armas mais potentes contra esta doença fulminante em um momento que não tínhamos ainda o recurso da vacina. Inevitável era a lógica de reconhecer em nossas estratégias sanitárias, pautadas exclusivamente na antibioticoterapia, a ineficiência e a incapacidade de permitir a coexistência entre doença e saúde.
Aquela época em que a suinocultura precisou deixar de ser coletiva, de ser pensada como um todo, para que todos os desafios fossem individualizados, região a região, granja a granja, leitão a leitão, se assemelha ao desafio cada vez mais real para a suinocultura mundial atual, que é a necessidade de se produzir de forma mais saudável e sustentável, a fim de se reduzir o uso irrestrito dos antimicrobianos.

Em termos de ciência, diversos estudos e instituições tem dirigido seus esforços para este desafio, como o Pigutnet (pigutnet.eu), rede que envolve mais de 30 países na discussão sobre o tema, que busca entender melhor o funcionamento do intestino dos leitões a partir da microbiota, da interação com o ambiente, das estratificações alimentares e da resistência aos antimicrobianos, marcada pela disbiose.
Além disso, um grande berço para novas descobertas individualizadas são os estudos dirigidos a humanos recém nascidos com modelos feitos a partir de leitões e que têm conseguido avanços muito interessantes para ambas as espécies, demonstrando, por exemplo, que em leitegadas muito numerosas o tempo de amadurecimento do sistema gastrintestinal é diferente para seus indivíduos.
Imagine o que acontece quando antecipamos o parto para os 114 dias em fêmeas cuja leitegada estaria com o máximo desenvolvimento intestinal aos 116 dias? Qual o impacto deste manejo sobre a mucosa, a microbiota, a permeabilidade e o consequente aproveitamento de nutrientes durante o início e continuidade da vida de um leitão?


Promoção da saúde intestinal de leitões

Estes pontos de discussão de fato podem definir como alcançamos a promoção da saúde intestinal de leitões. A microbiota, por exemplo, exerce grande influência na integridade da mucosa. Constante nas primeiras duas semanas de vida, mas extremamente sensível a variações da microbiologia ambiental e da alimentação nas duas semanas seguintes, a microbiota dos leitões é altamente desafiada em desmames entre 18 e 23 dias de vida. E como será que os antibióticos interferem nesta dinâmica de microrganismos? Disbiose definitivamente não é sinônimo de saúde intestinal.
De forma semelhante, o alimento também é fundamental para o desmame, isto porque, além da relação direta com o crescimento dos microrganismos do lúmen intestinal, é a modificação na quantidade de energia e nutrientes ingeridos no período de desmame, baixos e muitas vezes até nulos para os primeiros dias, que são responsáveis por toda uma mudança estrutural e funcional do intestino para reduzir os gastos energéticos e nutricionais, preservando a barreira física contra patógenos.
Simplificando, um leitão que não come, perde temporariamente a capacidade de absorver nutrientes e, consequentemente, reduz sua eficiência alimentar e seu crescimento muscular.

Utilizar um leque maior de ingredientes que permita a ativação de diferentes porções do duodeno, jejuno e íleo, promovendo o desenvolvimento completo do SGI ao invés de criar locos de maior atividade nesses órgãos. Usar racionalmente prebióticos, probióticos, ácidos orgânicos, extratos vegetais e outras estratégias que contribuam para melhorar o desenvolvimento e a manutenção da integridade do SGI, mas que não sejam encarados como substitutos pontuais aos antimicrobianos, pois, saúde intestinal é algo muito além de ppms e mg/kg. É, sim, uma mudança de atitude de toda uma cadeia de produção alimentar, como vem ocorrendo na Alemanha, Holanda e alguns outros (poucos) países.

Neste sentido, continua importante o trabalho dos médicos veterinários em prol da sanidade de nossos leitões, mas agora precisamos convocar também para a batalha todos os demais profissionais responsáveis pela saúde intestinal de nossos leitões: da equipe de fomentos, comprando matérias-primas de qualidade para leitões, a fábrica (incluem-se as indústrias feed), que devem se dedicar à produzir de forma exclusiva, com limpeza de matérias-primas, moagem e processamento adequado; o esclarecimento da equipe de logística de que a dinâmica dos leitões não é apenas economia e sim biologia e, principalmente, as equipes de granja, para que da lavagem da sala ao acompanhamento individual na maternidade todos possam contribuir para o desenvolvimento contínuo e saudável dos leitões.

E que façamos desta batalha algo tão vitorioso como tem sido a nossa luta diária contra todos os desafios que se impõem frente a nossa atividade.

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