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Soluções do passado não garantem o sucesso futuro

- Em uma era marcada por um ambiente de incertezas onde a previsibilidade dos eventos é praticamente impossível, a habilidade de aprender, desaprender e reaprender é fundamental, uma vez que, nesse cenário de mudanças constantes, as soluções adotadas no passado não garantem o sucesso futuro.

A suinocultura brasileira passou por uma série de transformações nos últimos anos, fomentadas por mudanças ocorridas não só dentro da porteira como genética, nutrição, sanidade e instalações, mas também por fatores externos como oscilações do mercado, instabilidade política, pressões sociais crescentes, mudança do perfil do consumidor e da força de trabalho, dentre outros. Quando consideramos o ambiente instável e hostil da produção de proteína animal, onde o preço dos principais insumos e de venda dos animais é controlado pelo mercado, a eficiência “dentro da porteira” é determinante para o sucesso do negócio e, portanto, ter uma visão sistêmica é fundamental.

O conhecimento científico, amplamente aplicado na produção animal, parte da observação da realidade e da busca de solução para um problema, a partir da qual se traça uma teoria / hipótese e utiliza-se da experimentação como base para a comprovação. Se por um lado isso permitiu grandes avanços com relação à padronização de processos e a otimização dos recursos, gerando altas taxas de produtividade, por outro lado, o alto grau de especialização, trouxe também modelos mentais que tendem a se segmentar e se concentrar em setores, por vezes se esquecendo do todo.


Por que fazer as perguntas certas?

O mais importante não é ter a resposta para tudo, mas sim fazer as perguntas corretas, buscando, em tempo, soluções que considerem e promovam a interdependência dos diversos setores ligados à produção. Mas, dentro de uma granja de suínos, quais seriam estes setores e os riscos da departamentalização?

As equipes das granjas são comumente organizadas nas áreas administrativas e de produção e, nesta última temos ainda, de uma forma simplificada, a divisão entre os chefes de setor e os ajudantes de produção. Gerencialmente, talvez essa seja uma forma prática de alocação dos recursos humanos, distribuição das funções e da rotina de trabalho sem muita complicação, porém, para que toda a engrenagem se encaixe e funcione bem, o grande desafio consiste no desenvolvimento dos talentos no sentido da conscientização de que o trabalho realizado por cada colaborador afeta diretamente a rotina e o desempenho do outro, e vice-versa.

Não é raro encontrarmos graves falhas de comunicação nos diferentes níveis do sistema de produção e, de forma geral, há uma grande oportunidade de se desenvolver nas equipes o conceito de clientes internos.

 

A fábrica como parte do sistema...

Um exemplo clássico, consiste de que há um entendimento de que as fábricas de rações convencionais são concebidas para atender o sistema de produção em sua totalidade, onde o maior volume está associado às engordas e os “drivers” estão normalmente relacionados a critérios como tonelagem mensal, produtividade por hora trabalhada e custo de produção. Mas, como saber se estamos atendendo às categorias mais sensíveis, como porcas e leitões, que demandam muitos ingredientes especiais, com um processo produtivo muito mais complexo? Qual é a atenção dispensada à qualidade quando o assunto é dietas pré-iniciais, que representam menos de 2% do volume da fábrica? Quais são os parâmetros observados na rotina de uma fábrica com relação à contaminação cruzada, granulometria, homogeneidade e estabilidade da composição da dieta e seus impactos sobre o desempenho e comportamento dos animais? Sabe-se que uma fábrica dedicada à produção de rações para leitões, por exemplo, pode trazer um impacto muito positivo sobre vários parâmetros de creche, por terem matérias primas selecionadas e processos diferenciados:



Okiyama 2016

Extrapolando esses dados para a realidade das granjas evidencia-se a importância da interface entre fábrica e sistema produtivo de forma que um possa complementar e contribuir com a melhoria dos processos do outro.

 

Desenvolvimento estrutural e capacidade de conversão do alimento em carne...

O período de transição marcado pelo desmame representa um bom exemplo onde também há falha na comunicação e na visão de sequência e continuidade no fluxo de uma granja. Equipes de maternidade e de creche normalmente não se falam com frequência para debaterem sobre as oportunidades de melhoria e muitas vezes estão em sítios separados. Talvez isso remeta à ausência de informações mensuradas de forma precisa e também sobre como a fase de maternidade é importante na preparação do leitão para a creche, não se restringindo exclusivamente ao número e peso dos leitões desmamados. Uma importante missão deste setor é introduzir a dieta sólida e preparar o leitão, minimizando o tempo de jejum nas primeiras horas e condicionando o animal a uma alimentação mais vigorosa na primeira semana após o desmame (Raele 2016).


Adaptado de De Heus Trial RS-162.

Embora este seja um tema discutido a muito tempo, em levantamentos realizados em diferentes regiões do país, constatou-se que poucos são aqueles que dão alguma importância para o manejo de estímulo ao consumo e adaptação dos animais às dietas sólidas como rotina das granjas. Como pode ser evidenciado abaixo, diversos sistemas de produção atualmente têm alguma deficiência na preparação do leitão para a vida pós-desmame no que tange o comportamento de consumo e a capacidade de digerir o alimento:


Dados internos De Heus 2016

É fato que animais fisiologicamente mais bem preparados para creche, tornam-se mais aptos a consumirem alimento desde as primeiras horas pós desmame e podem atingir um consumo três vezes maior nos primeiros dias da fase, quando comparados com leitões não habituados ao alimento (Gaviolli, 2016). A consequente melhoria dos resultados pode ser explicada pela melhor padronização dos lotes que apresentam menor variabilidade quando o desempenho nas primeiras semanas pós desmame é potencializado:



Contudo, este ganho se reflete diretamente não só no resultado final de creche, como também no resultado da terminação. Segundo Douglas et al. 2014, a vida produtiva do leitão pode ser decisivamente influenciada pelo período compreendido entre 21 e 42 dias, principalmente em virtude dos desafios de maternidade e desmame. Em estudo conduzido pela De Heus (De Heus Trial-152) observou-se que animais que receberam estímulo e uma dieta elaborada para o desmame, garantindo estabilidade da microbiota, obtiveram 1,0 Kg a mais de peso ao final de 45 dias de idade, o que refletiu em um peso superior a 3,5 Kg quando comparado com o controle ao abate.

  

Considerando o Sistema...

É determinante que as decisões gerenciais sejam tomadas com base nos objetivos macro do negócio, com uma visão sistêmica da produção e dos ambientes interno e externo, com foco na rentabilidade, uma vez que se trata de uma atividade econômica. Na definição do melhor programa nutricional, é necessário simular cenários em que se possa avaliar o impacto dos investimentos sobre o retorno financeiro, encontrando o equilíbrio entre os modelos de planejamento baseados no menor custo ou em máximo desempenho, de forma a se buscar a melhor margem sobre o custo alimentar da granja, uma vez que a renda gerada com a venda dos animais é a responsável pelo fechamento do ciclo para pagamentos dos custos fixos e variáveis, reinvestimento na atividade e geração de lucro, tornando o negócio sustentável. Igualmente importante são as ações gerenciais que promovam a integração e a interação entre pessoas e setores da granja, de forma a exercitar a visão sistêmica que contribuirá para a assertividade das decisões, evitando a setorização que, por muitas vezes, dificulta a resolução definitiva de um problema.

 

Referências Bibliográficas:

  1. DOUGLAS, S. L.; WELLOCK, I.; EDWARDS, S. A.; KYRIAZAKIS, I. High specification starter diets improve the performance of low birth weight pigs to 10 weeks of age. Journal of Animal Science, Champaign, v. 92, n. 10, p. 4741-4750, 2014.
  2. GAVIOLI, D. F. Creche, uma fase que requer atenção. Revista Feed&Food, 112, p. 28, 2016.
  3. GAVIOLI, D.F. Atitudes que antecedem a uma creche de sucesso – Revista Suínos&Cia 57, p. 6-8, 2016.
  4. OKIYAMA, W. H. E.Fábrica dedicada a leitões: um novo conceito em nutrição – jornal O Presente Rural 136, p. 58-59, 2016.
  5. RAELE, E. O. Palestra: O aporte nutricional como elemento fundamental para a promoção da saúde intestiDisponível em:
  • http://aveworld.com.br/relatorio/31e8c724399ea50f274f084b4cba94bc.pdf,
  • acessado em 17/02/2016.

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